quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PORTUGAL EM CAMBRIDGE


Minha crónica no Público de hoje (na imagem o Corpus Christi Colege, em Cambridge):

Uma das ruas mais pitorescas de Cambridge dá pelo nome de Portugal Street. Desemboca na Portugal Place, perto dos agradáveis greens daquela cidade universitária inglesa que se estendem à volta da cidade, alguns nas traseiras dos colégios mais famosos, ao longo do rio Cam. Parece que o nome da praça e da rua, de belas e antigas casas alinhadas, se deve à proximidade do cais onde era desembarcado o vinho do Porto que vinha para as mesas dos colégios, designadamente para as high tables, onde só o master, os fellows e os seus convidados têm lugar.

Outra presença portuguesa em Cambridge encontra-se na mais movimentada St. Andrew Street: é o restaurante Nando, onde é servido o renomado peri-peri chicken (o churrasco tão gabado pelo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira), que pode ser acompanhado por portuguesíssimas cervejas, e finalizado com um pastel de nata e uma bica.

Na Cambridge inglesa (tal como aliás, na não menos universitária Cambridge norte-americana, perto de Boston, no Massachusetts), há bastantes portugueses. Alguns são emigrantes tradicionais, ou filhos deles, tal como, por exemplo, as duas portuguesas a trabalhar na hotelaria que encontrei no University Arms Hotel e que, graças à Ryan Air, um autocarro aéreo, conseguem dar um pulo fácil às suas terras natais. Mas outros são emigrantes especiais, estudantes em busca de formação especializada e ainda cientistas já especializados, aos quais vulgarmente se chama “cérebros fugidos”. Na Universidade de Cambridge há numerosos estudantes portugueses a fazer a licenciatura e o doutoramento. E também há, embora em menor número, investigadores e professores, como o Tiago Rodrigues, que, nascido em Paredes de Coura, no Alto Minho, depois de ter concluído o doutoramento em bioquímica na Universidade de Coimbra, trabalhou em Madrid e está agora em Cambridge a investigar o cancro. Recentemente guiou-ne, com indisfarçável entusiasmo, pelo colégio de Corpus Christi, ao qual está associado, gabando-lhe as facilidades e contando-me as tradições ainda mais ancestrais do que as que conheceu em Coimbra.

Depois do vinho do Porto e do frango de churrasco, temos, portanto, a exportação de cérebros como uma das formas contemporâneas de ligação entre Portugal e o Reino Unido. Os estudantes e cientistas portugueses em terras de Sua Magestade britânica estão organizados no PARSUK, a Portuguese Association of Researchers and Students in the United Kingdom, que é muito activa em organizar encontros e outras actividades (do outro lado do Atlântico, há uma instituição similar, a PAPS, Portuguese American Post-Graduate Society). Falam inglês tão bem como os nativos e estudam ou fazem ciência tão bem ou, nalguns casos, bem melhor do que os nativos. A Universidade de Cambridge é uma escola de élite, um sítio por onde andaram Isaac Newton, Charles Darwin e Francis Crick, só para referir alguns cientistas, ou Francis Bacon, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, só para acrescentar alguns filósofos. Mas isso não intimida os cérebros portugueses, que aí triunfam com idêntica facilidade, embora menos publicidade, do que fazem os nossos melhores treinadores e futebolistas que actuam lá fora. Não há desmentido possível: o treinador do Chelsea, André Villas-Boas, e o jogador do mesmo clube Raul Meireles são mais conhecidos em Portugal do que qualquer um dos nossos cientistas no Reino Unido. Dou uma informação curiosa sobre futebol: as suas primeiras regras têm o nome de Cambridge Rules por terem sido estabelecidas nessa cidade em 1848 e logo ensaiadas num enorme green junto ao University Arms Hotel.

O Tiago e os seus colegas merecem ser mais conhecidos cá dentro. Não só mais conhecidos mas também mais aproveitados. Eles não receiam o futuro, que, no seu ponto de vista, tanto pode ser lá fora como cá dentro. Têm uma grande vontade de ajudar o país, o que podem fazer em qualquer um dos lados, embora, para nós, fosse evidentemente preferível que o fizessem cá dentro. Deviam poder ter a escolha, que cada vez têm menos, entre permanecer e regressar. Numa época em que a economia prevalecente no mundo não é o comércio do vinho do porto ou do pastel de nata, nem a microeconomia do futebol, mas sim a economia do conhecimento, custa ouvir os incitamentos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e do ministro-adjunto Miguel Relvas à fuga de cérebros e, ainda por cima, tentar dirigi-los, com argumentos bacocos, para o Terceiro Mundo, desprezando a Europa e os Estados Unidos. O nosso maior potencial não está no vinho nem nos pastéis, muito menos nos músculos dos jogadores, mas sim nos cérebros, em particular os jovens, que activamente se ocupam, em Portugal e por esse mundo fora, na ciência, na tecnologia, na filosofia e nas artes. Tudo leva a crer que as afirmações de Passos Coelho e de Relvas não foram lapsus linguae. Foram, isso sim, o resultado de um profundo equívoco.

5 comentários:

  1. De facto, o Tiago, amigo de infância que, tal como eu, cresceu neste belo concelho courense, não é um courense, altominhoto, português, ele é um cidadão do mundo, está bem onde estiver e tem sucesso em qualquer lado. Não querendo entrar na política, prefiro debruçar-me sobre o cientista tão pouco conhecido e que merece muito mais. Mas, o Tiago sabe, o caminho faz-se andando e do pouco se fará muito. Para já, muitos parabéns (mais uma vez) pelo teu trabalho do qual eu e os teus amigos somos fieis seguidores. Muitas felicidades e cá te esperamos, senão no Carnaval, lá para a Páscoa, para manter a tradição e pôr a conversa em dia. Bjs
    Carla Vieira, Paredes de Coura

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  2. Um outro lapsus linguae parece-me ser o de tratar por exportaçao a saída de cérebros (e maos) do país. Quando sai uma barrica de Porto ou uma caixa de pastéis, por menor que seja, o seu produtor vai ter retorno. Quando se envia um recurso altamente qualificado... Pior, quando se manda um recurso altamente qualificado, nao só nao se vê retorno, como o carinhoso pontapé que se lhe deu (aliado a condiçoes como fecho de consulados ou falta de professores de portugues) ainda pode estimular o recurso em causa a ficar mesmo por outras paragens...
    Ricardo

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  3. "Sua Majestade", não com "g".
    ;) Obrigado, Carlos, pelos posts e histórias!
    Rafael

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  4. Tem-se a tendência de só se falar das coisas más dos portugueses mas aqui se nota como os portugueses se dão bem no resto do mundo. Damos que falar e por bons motivos.

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